Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar) apresenta estudos inéditos no 9º Congresso Brasileiro de Oceanografia

Manguezais que armazenam carbono, caranguejos que sustentam comunidades costeiras, raias e tubarões que revelam sinais de contaminação e espécies ameaçadas que podem ganhar novas chances de sobrevivência após caírem em redes de pesca. Em comum, estudos mostram que a conservação do litoral tem impacto direto na vida marinha e nas pessoas que dependem da pesca, do extrativismo e de recursos naturais essenciais como o próprio oxigênio.
É a partir dessa perspectiva integrada que a Associação MarBrasil participa do 9º Congresso Brasileiro de Oceanografia, de 24 a 28 de agosto, apresentando pesquisas inéditas na costa brasileira. Os estudos foram desenvolvidos por pesquisadores ligados à instituição e ao Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (REBIMAR), iniciativa que conta com patrocínio do Programa Petrobras Socioambiental e parceria científica de universidades brasileiras.
Um “check-up” dos manguezais
Entre os destaques está o estudo “Monitoramento integrado da saúde dos manguezais da Grande Reserva Mata Atlântica, Sul e Sudeste do Brasil”, desenvolvido pelas pesquisadoras Sarah Charlier-Sarubo (MarBrasil), Cassiana Baptista Metri (UNESPAR), Laura Krama (LAGEAMB/UFPR) e Marília Cunha Lignon (UNESP), todas integrantes do Rebimar.
A pesquisa fez um diagnóstico ambiental dos manguezais, combinando diferentes indicadores para identificar sinais de degradação, resiliência e recuperação. Em 2025, foram monitoradas 42 parcelas permanentes nos litorais de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, inseridas na Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (UNESCO).

As pesquisadoras avaliaram a estrutura da vegetação, estimaram biomassa e estoques de carbono e utilizaram drones para obter imagens capazes de indicar características da vegetação, como vigor vegetativo e teor de clorofila.
O diagnóstico também incorpora o caranguejo-uçá (Ucides cordatus), espécie ecologicamente importante e diretamente relacionada às comunidades que dependem dos recursos dos manguezais.
A combinação dos indicadores permite observar o ecossistema de diferentes perspectivas: a floresta, o carbono armazenado, o estado de conservação dos bosques de mangue e a presença de uma espécie-chave.
Os resultados mostram diferenças importantes entre as áreas. Em Cananéia e Icapara, no litoral paulista, os manguezais apresentaram alto desenvolvimento estrutural e estoques de carbono aéreo entre 65 e 107 toneladas por hectare.
Já no Valo Grande, em Iguape (SP), surgiu um dos principais sinais de alerta. O índice de vigor vegetativo foi negativo, enquanto o estoque de carbono ficou em 43,8 toneladas por hectare. No local, os pesquisadores também não encontraram populações de caranguejo-uçá. O cenário está associado à presença de um canal artificial que causa grandes alterações ambientais.
Em Superagui, no Paraná, o estoque de carbono foi de 18,5 toneladas por hectare, resultado relacionado a um evento climático extremo ocorrido em 2019, que provocou a mortalidade de árvores adultas. O local, entretanto, apresenta sinais de regeneração e uma população de caranguejo-uçá em recuperação.
Em Paranaguá, mesmo sob influência portuária, o manguezal manteve estoque moderado de carbono, de 57,7 toneladas por hectare, indicando capacidade de resiliência da floresta. Ao mesmo tempo, a densidade de caranguejos foi considerada crítica, de apenas 0,06 indivíduo por metro quadrado.

Quanto o manguezal pode suportar?
Outro estudo apresentado no Congresso procura responder a uma pergunta importante para quem vive e trabalha nos manguezais: quanto é possível retirar da natureza sem comprometer a renovação do caranguejo-uçá?
A pesquisa acompanhou a população de caranguejo-uçá em 13 áreas de manguezais dos litorais de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Durante o trabalho de campo, os pesquisadores registraram 4.703 tocas, as tocas abertas foram medidas e convertidas para o tamanho da carapaça do caranguejo. Esse método facilita o estudo da população dos caranguejos que para serem coletados é necessária a presença de um catador experiente.
O estudo foi conduzido por Gabriele Costa Ramos, Júlia Ramos de Oliveira, Tânia Zaleski, Rafael Metri, Cassiana Baptista Metri (UNESPAR) e Sarah Charlier-Sarubo (MarBrasil).
A quantidade de caranguejos variou de acordo com o ambiente. Nas áreas mais próximas da água, chamadas de franja, foi encontrada uma média de 1,57 caranguejo por metro quadrado. Nas áreas mais internas do manguezal, a média foi de 1,27.
Mas um dado chamou a atenção: em algumas regiões, havia muitos caranguejos jovens e poucos adultos, que são justamente os animais que podem ser capturados, aqueles com largura corporal superior a sete centímetros.
Na Baía da Babitonga, em Santa Catarina, por exemplo, uma das áreas analisadas tinha apenas cerca de 1% de caranguejos adultos em tamanho adequado para captura. Já em Nóbrega, em Cananéia, São Paulo, a proporção entre jovens e adultos era mais equilibrada.
As diferenças mostram que não dá para tratar todos os manguezais da mesma maneira. Cada região tem suas próprias características e deve ter um histórico diferente de exploração.

Raias e tubarões como sentinelas da saúde do oceano
Raias e tubarões podem ajudar os pesquisadores a descobrir problemas no mar antes mesmo que eles sejam percebidos a olho nu. É por isso que esses animais são considerados importantes indicadores da saúde dos oceanos.
A equipe de Raias e Tubarões apresenta no Congresso uma série de pesquisas que investigam desde a presença de contaminantes nesses animais até a resistência de bactérias a medicamentos.
Um dos estudos analisou a raia-ticonha (Rhinoptera bonasus), espécie classificada como Vulnerável, capturada acidentalmente por pescadores artesanais em Matinhos, no litoral do Paraná.
Os pesquisadores analisaram amostras de sangue e brânquias e encontraram sinais de que a presença de determinados metais e metalóides pode estar relacionada a alterações no funcionamento do organismo, incluindo processos ligados ao metabolismo, equilíbrio ácido-base e osmorregulação (processos fisiológicos essenciais para a saúde do animal). Ou seja, nem todo impacto da poluição é visível por fora. O animal pode parecer saudável, enquanto alterações já estão acontecendo internamente.
Outro estudo investigou a raia-viola-de-focinho-curto (Zapteryx brevirostris), espécie ameaçada de extinção, e analisou as bactérias presentes em seu organismo. É a primeira pesquisa a fazer esse tipo de levantamento para a espécie no Atlântico Sudoeste.

Entre dez animais analisados no litoral do Paraná, foram identificadas 23 espécies de bactérias, incluindo algumas que também podem estar associadas a doenças em seres humanos.
Um dos dados que mais chama a atenção é a resistência dessas bactérias aos antibióticos. Mais da metade dos microrganismos analisados, 57%, apresentou resistência a pelo menos um dos medicamentos testados. A resistência chegou a 95% no caso da ampicilina e a 83% para a tetraciclina, embora o estudo não tenha medido diretamente a quantidade de resíduos de antibióticos na água.
Também foi encontrada Escherichia coli em animais capturados em águas costeiras. A presença dessa bactéria pode ser um sinal de contaminação por esgoto ou fezes no ambiente.
Esses animais funcionam, assim, como uma espécie de “alarme biológico” do oceano, ajudando os pesquisadores a identificar pressões ambientais que podem afetar não apenas a vida marinha, mas também a qualidade das águas e os ecossistemas dos quais as pessoas dependem.
A pesquisa foi realizada por uma equipe multidisciplinar da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Associação MarBrasil (programa REBIMAR e projeto One (Blue) Health), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Entre os pesquisadores estão Rachel Ann Hauser-Davis, Renata Garcia Costa, Rose Mary Pimentel Bezerra, Izabela Martins Vicente, Renata Daldin Leite, Eloisa Pinheiro Giareta, Natascha Wosnick, Leonardo de Paula Rios, João Pedro Sader Teixeira e Joseli Maria da Rocha Nogueira.
Uma segunda chance para espécies criticamente ameaçadas
É possível reduzir a mortalidade de animais ameaçados que são capturados incidentalmente pela pesca?
Um estudo com o cação-anjo (Squatina occulta), espécie Criticamente Em Perigo, avaliou um protocolo de recuperação em ambiente controlado após a captura incidental.
Oito indivíduos capturados em redes de emalhe destinadas à pesca de linguado, na região de Pontal do Paraná, foram acompanhados durante 24 horas em cativeiro.
Sete dos oito animais sobreviveram ao período de recuperação em cativeiro, uma taxa de sobrevivência de 87,5%. Pesquisadores também observaram uma recuperação significativa do estresse durante o período de reabilitação.
O estudo representa o primeiro registro mundial de um protocolo de recuperação em cativeiro para o cação-anjo. A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da UDESC, Associação MarBrasil (programa REBIMAR e projeto One (Blue) Health), UFPR e Fiocruz, com participação de João Pedro Sader Teixeira, Renata Daldin Leite, Natascha Wosnick, Leonardo de Paula Rios, Rachel Ann Hauser-Davis e Eloísa Pinheiro Giareta.
Mais do que estudar espécies isoladas, o conjunto de trabalhos ajuda a construir uma visão integrada do litoral e aponta possibilidades concretas de aprimorar estratégias de conservação.




