Lixo plástico invade ilhas protegidas do Paraná

Pesquisa revela níveis alarmantes de poluição no Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais

Foto: Robin Loose.

Um levantamento inédito realizado pela Associação MarBrasil revelou níveis alarmantes de contaminação por plástico no Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais, no litoral do Paraná. Mesmo sendo uma Unidade de Conservação Federal de Proteção Integral e desabitada, a ilha apresentou alta concentração de resíduos plásticos — tanto micro quanto macro — evidenciando a gravidade da poluição marinha. A pesquisa faz parte do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), desenvolvido com patrocínio do Governo Federal por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

Primeiramente, pesquisadores coletaram amostras da água, no entorno do parque, bem próximo às ilhas. Uma das amostras de pluma (aquela espuma que se forma na água) revelou um dado preocupante. “Foi chocante a quantidade de microplástico encontrada nessa pluma. Um absurdo! A olho nu foi possível ver como a amostra veio cheia de microplásticos”, conta Allan Paul Krelling, professor do Instituto Federal do Paraná (IFPR) e um dos coordenadores da pesquisa. O material foi encaminhado para o laboratório onde passa por um tipo de perícia para identificar a quantidade e o tipo dos resíduos. 

Pluma suja

Enquanto pesquisadores realizavam as coletas de barco, uma lata de tinta cheia foi “pescada” na água. O material tóxico com rótulo internacional estava à deriva, ao lado de Currais. “Parece ser um reagente, provavelmente caiu de algum navio. Está com bastante incrustação de organismos o que indica que a lata já está há um bom tempo perdida”, completa Allan. 

Na sequência, o grupo desembarcou no arquipélago e fez uma coleta de macroplástico. Havia muito lixo também perto dos ninhos de aves. Em meia hora de trabalho, os pesquisadores encheram várias sacolas de resíduos. “Coletamos muitas garrafas, sandálias, isopor e lixo internacional de todo tipo. A análise desse material no laboratório nos dá um panorama do que é cada coisa e a sua origem”, acrescenta Krelling. 

Na ilha Grapirá, a maior do arquipélago do Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais, a quantidade de itens encontrados novamente surpreendeu a equipe. “Em um trecho de cerca de 75 metros de praia, coletamos 202 itens, o que equivale a aproximadamente 2,7 itens por metro de costa”, relata Fernanda Possatto, que também coordena as pesquisas dentro do Rebimar. 

 

Lixo plástico ao lado de ninho de Atobá. Foto: Fernanda Possatto.

 

Allan explica que esse valor é 12 vezes maior do que a União Europeia sugere como o limite aceitável de bom estado ambiental. “Isso chamou muito a nossa atenção, pois uma ilha totalmente desabitada, com uma praia de difícil acesso para desembarcar, não esperávamos uma quantidade tão grande. A presença de uma grande quantidade de itens internacionais sugere que estes estão chegando através de correntes, muitas vezes depois de serem descartados inadequadamente por navios na região”.

Para os pesquisadores, entender como um Parque Nacional Marinho, tão próximo à costa, pode estar exposto aos impactos externos é fundamental. “Quando se trata do lixo no mar, existe um gradiente que vem da terra, de onde 80% do lixo no mar se origina, e chega até os grandes giros oceânicos, onde estão as ‘ilhas’ de lixo. O Parna Currais está em local estratégico, quando se pensa nesse gradiente do litoral paranaense. Então ter a oportunidade de investigar essa poluição nesse ambiente nos ajudará a entender o status do nosso litoral em relação aos microplásticos“, comenta Krelling.

Estamos fazendo uma grande ‘fotografia’ da região com um estudo em Currais e outras ilhas oceânicas para fazer um comparativo com os dados que já levantamos em anos anteriores. Esperávamos que essas áreas oceânicas tivessem menos resíduos do que em outros locais estudados, mais perto da costa e em baías. Mas identificamos um acúmulo bastante grande de itens grandes, como garrafas pet”, acrescenta Fernanda Possatto. “Possivelmente o arquipélago tem atuado como uma espécie de sumidouro para itens plásticos”, lamenta.

Pesquisadores Allan Krelling e Fernanda Possatto.

 

Panorama da Contaminação

O estudo é considerado um dos mais amplos sobre microplásticos já realizados em estuários no país. A atual fase do Rebimar cobre desde o Complexo Estuarino de Paranaguá até a Ilha do Mel, passando por baías, praias e rios que desembocam no mar. As análises confirmam presença constante de microplásticos não apenas na água e sedimentos, mas também no trato gastrointestinal de peixes e aves.

Entre as espécies afetadas estão fragatas, atobás e gaivotas, com índices que chegam a 20% de ocorrência de resíduos sólidos em seus sistemas digestivos. Na fase mais recente do projeto, até mesmo a coruja-buraqueira (Athene cunicularia), uma ave terrestre comum nas restingas, apresentou indícios de ingestão de microplásticos.

Isso mostra que a poluição ultrapassa barreiras geográficas e ecológicas. Encontramos contaminação tanto em áreas densamente povoadas como Paranaguá, quanto em unidades de conservação remotas”, reforça Krelling.

A coleta de dados também se estende a peixes vendidos em mercados e supermercados da região. Os resultados parciais já confirmam a presença de microplástico nos animais de consumo.

 

Amostras de microplástico analisadas em laboratório pela equipe Rebimar/IFPR.

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