Com liberação da captura, comércio e consumo até março, pesquisadores reforçam alerta sobre conservação da espécie e saúde dos manguezais

O período de defeso do caranguejo-uçá (Ucides cordatus), principal espécie de crustáceo explorada comercialmente nos manguezais brasileiros, termina no dia 30 de novembro no Paraná. A partir de dezembro, a captura fica permitida até março, justamente quando os animais deixam suas tocas para acasalar, prática inversa a outras regiões do país, onde a captura é proibida durante a reprodução.
A espécie já integrou a Lista Nacional das Espécies Sobreexplotadas ou Ameaçadas de Superexploração do Ministério do Meio Ambiente. Por isso, a atividade é regulada por duas portarias do Ibama, que definem tamanhos mínimos e penalidades. Diferentemente de outros estados, onde o limite é de 6 cm, no Paraná só podem ser comercializados caranguejos com pelo menos 7 cm de largura de carapaça.
“A espécie leva de dois a três anos para atingir a maturidade e pode viver pouco mais de dez anos. Um animal grande pode ter levado até oito anos para chegar ao porte permitido para a captura”, explica Cassiana Baptista Metri, professora da UNESPAR e pesquisadora do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (REBIMAR), da Associação MarBrasil.

O que o sangue do caranguejo conta sobre os manguezais?
Há oito anos, o REBIMAR, patrocinado pelo Programa Petrobras Socioambiental e pelo Governo Federal, monitora o caranguejo-uçá em áreas da Grande Reserva Mata Atlântica, incluindo Iguape, Cananeia, Guaraqueçaba, Paranaguá, Antonina, Guaratuba e Joinville.
Um novo protocolo científico vem ampliando o entendimento sobre a saúde desses ecossistemas: o ensaio do micronúcleo, capaz de identificar danos genéticos nas células e os efeitos da poluição sobre o caranguejo.
A coleta é feita em parceria com catadores locais. No manguezal, o animal é limpo e tem uma pequena amostra de sangue retirada com seringa, fotografada e levada para análise em laboratório. Logo após o procedimento o animal é devolvido vivo ao ambiente.
“Cada gota de sangue pode revelar muito: deformações celulares, indícios de estresse ambiental e sinais de exposição a contaminantes, informações que ajudam a mapear riscos e orientar estratégias de conservação”, detalha Metri.
Mesmo exposto a metais pesados, o caranguejo-uçá mostra uma surpreendente capacidade de resistência, mantendo sua vitalidade. “A hipótese é que o organismo do caranguejo consegue mobilizar esses poluentes de forma a evitar danos”, explica a coordenadora da pesquisa. “Uma adaptação que desperta tanto admiração quanto alerta”.
O caranguejo está no meio da cadeia alimentar. Alimenta-se de folhas de mangue e pequenos organismos e serve de alimento para aves e pequenos mamíferos. Se ele acumular contaminantes, todo o ecossistema estará exposto. E o alerta chega também ao prato de quem consome frutos do mar. Para dimensionar o risco, os cientistas estão mapeando o perfil de consumo da população. A investigação busca detalhes como a frequência com que o caranguejo é consumido, quais partes do animal são ingeridas e as quantidades tipicamente consumidas.
“Com estudos como esse, é possível antecipar ameaças invisíveis e estabelecer parâmetros de monitoramento que podem ser acionados em casos de acidentes, vazamentos ou até mesmo incidência de pragas”, acrescenta a especialista.
A “andada”: o grande espetáculo da reprodução
A reprodução do caranguejo-uçá é um evento singular, conhecido como andada ou “corrida do caranguejo”. Ela ocorre em períodos específicos de lua nova e lua cheia, combinados com determinados níveis de maré e volume de chuvas.
“Essa saída coletiva da toca não é frequente. A espécie depende de uma combinação muito precisa de luz, chuva e qualidade da água. É quase um alinhamento dos planetas”, brinca Metri.
Durante a andada, machos disputam fêmeas em confrontos. Após o acasalamento, as fêmeas sobem nos caules do manguezal, onde liberam os ovos que permanecem presos ao corpo. O período de incubação varia de dois a três meses, quando então os ovos são liberados na água.



