APA Guaratuba

O que torna a Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaratuba tão especial?

Sua importância ecológica e riqueza cultural a tornam uma joia preciosa do litoral paranaense, um tesouro natural estudado pelo Rebimar V

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APA de Guaratuba abriga áreas úmidas e habitats aquáticos fundamentais para diversas espécies. Foto: Gabriel Marchi.

Biodiversidade, beleza cênica e importância ecológica ímpares estão reunidas na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaratuba. O território é a única área administrada pelo Estado do Paraná com a classificação internacional Sítio Ramsar, pela importância de suas áreas úmidas e habitats aquáticos fundamentais para diversas espécies. Pelos próximos anos, a quinta edição do Programa de Recuperação da Biodiversidade (Rebimar V) da Associação MarBrasil vai aprofundar os estudos dentro desse território. 

Com uma natureza incomparável e grande riqueza cultural, a APA de Guaratuba abrange parte dos municípios de Guaratuba, Matinhos, Tijucas do Sul, São José dos Pinhais e Morretes, numa extensão total de quase 200 mil hectares. Possui manguezais bem preservados, matas periodicamente alagadas e ecossistemas únicos que abrigam plantas e animais adaptados à dinâmica das marés e às águas que podem ser doces, salobras ou salgadas.  

Além das águas da baía, a APA abriga ainda ilhas fluviais e a ilha do Saí-Guassu contidas na Linha de Tombamento da Serra do Mar. Essa variedade de habitats proporciona um lar para uma grande variedade de espécies de fauna e flora, incluindo aves marinhas, tartarugas, golfinhos e uma abundância de peixes e crustáceos. Sua localização estratégica faz dela uma área de reprodução, alimentação e refúgio para diversas espécies ameaçadas. 

“Esse é um dos raros redutos da Mata Atlântica e dessa intersecção mar-terra. Uma planície litorânea que tem um bioma importantíssimo com poucos remanescentes ao longo da costa brasileira”, destaca o oceanógrafo Frederico Pereira Brandini, fundador da Associação MarBrasil, organização que coordena o Rebimar. “É uma obrigação da sociedade atual somar esforços e angariar recursos humanos e financeiros para poder preservar o que ainda resta de natureza. Isso é importante até do ponto de vista econômico, tendo em vista o potencial turístico da região”, completa. 

Fauna marinha

O Rebimar já atua na Grande Reserva Mata Atlântica desde 2011 e, na quinta fase, estendeu suas linhas de pesquisa na APA de Guaratuba. O programa conta com pesquisadores de diversas instituições de ensino e patrocínio da Petrobras e do próprio Governo Federal, que têm interesse em acompanhar a conservação e as ameaças a esse ecossistema. projeto-rebimar-associacao-marbrasil-conservacao-educacao-ambiental-mergulho-cientifico-pesquisa-conservacao-e-uso-racional-do-ecossistema-marinho-costeiro-Apa Guaratuba

“É um desafio gigante, pela importância da região, pela dimensão e pela dificuldade de acesso de pesquisa com a necessidade de logística de embarcação. Mas começamos a ter agora um olhar maior para essa baía e buscar informações sobre animais marinhos e costeiros”, explica a bióloga Camila Domit, coordenadora técnica das ações com tartarugas-marinhas. 

Para a pesquisadora, a região, que foi muito bem estudada com relação a fauna e flora terrestre, mas os estudos precisavam entrar no mar. “O Rebimar vem trazer justamente esse desafio de voltar a olhar para essa região que ainda tem uma defasagem no seu conhecimento de fauna, principalmente costeira-marinha”. 

Domit lembra que a região contava com a presença comum de espécies de golfinho que deixaram de aparecer por ali. “Queremos saber porque esses animais deixaram de usar essa área. Outras diversas espécies de fauna marinha se deslocam ao longo dessa nessa zona costeira e devem usar a baía de Guaratuba como zona de refúgio. E se não usam, por qual motivo?” A bióloga marinha explica que a delimitação de áreas prioritárias para essas espécies ajuda a guiar ações de desenvolvimento econômico que vem sendo propostas. “Sem conhecer a região não há como saber o que e como ela será impactada”, diz ela.  

Por decreto federal, são proibidas ou restringidas atividades industriais potencialmente poluidoras, assim como obras que causem sensíveis alterações ambientais, na APA de Guaratuba. A abertura de vias, canais, e a implantação de projetos de urbanização dependem de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) aprovado e autorizado pelo órgão estadual competente, como é o caso da Ponte de Guaratuba. 

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Simulação gráfica da Ponte de Guaratuba-Matinhos depois de concluída. Imagem: DER.

Para Domit, apesar das alterações no ambiente com a obra, haverá benefícios para a fauna marinha com o tempo. “Para os animais marinhos é muito melhor que exista um impacto agudo, mas monitorado com todos os equipamentos e tecnologias de redução de impacto, do que algo crônico como é atualmente o Ferry Boat que é um grande problema para mamíferos aquáticos e, provavelmente, um dos impulsionadores do afastamento dos golfinhos daquela região”, explica.

A área é uma das poucas baías do mundo onde o boto-cinza não conseguiu êxito na sua permanência. Com população estimada de apenas 10 indivíduos, Domit considera a hipótese de uma extinção regional da espécie.

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Boto-cinza. Foto: Gabriel Marchi.

Manguezais

O acompanhamento científico do Rebimar é feito na água, no solo e na vegetação, com o auxílio das comunidades tradicionais caiçaras que habitam a região há gerações e mantêm uma ligação profunda com o ambiente local. 

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Pesquisas são realizadas com apoio e respeito às comunidades tradicionais da região. Foto: Gabriel Marchi.

Pesquisadores do manguezal estenderam as amostras – como chamam as áreas estudadas – na APA de Guaratuba e no Parque Estadual do Imbu Guassu. Seis novos espaços passam a ser monitorados. “São áreas bem conservadas, mas que apresentam uma quantidade menor de carbono armazenada. Fizemos a estimativa pela biomassa vegetal, que são os troncos, folhas e toda a parte de vegetação que está acima do solo, e comparamos os mapas com outras regiões monitoradas pelo Rebimar desde São Paulo”, esclarece Sarah Charlier Sarubo, Coordenadora de Flora Manguezal. 

A latitude influencia nessa redução do armazenamento do carbono: “Quanto mais ao sul, mais nos aproximamos do limite de ocorrência dos manguezais no Brasil, que é Laguna, Santa Catarina. Quanto mais ao sul, essa vegetação vai perdendo biomassa e não é tão exuberante, como nos manguezais amazônicos que possuem alturas enormes. De qualquer forma, são áreas super conservadas com manguezais muito bonitos. Apesar da quantidade menor de carbono, parecem estar prestando os mesmos serviços ecossistêmicos do que os manguezais de São Paulo e Guaraqueçaba”, explica Sarah.

Poluição

Outra linha de pesquisa do Rebimar avalia a presença de microplástico na água e no sedimento da baía de Guaratuba. De 2021 a 2023, foram feitas coletas nas baías de Paranaguá, Antonina, Laranjeiras e Guaraqueçaba, todas dentro do Complexo Estuarino de Paranaguá, e em três praias estrategicamente selecionadas na desembocadura: Pontal do Sul, Ilha das Peças e Ilha do Mel. As amostras foram colhidas na coluna d’água e no sedimento para analisar a quantidade e distribuição do microplástico. 

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Após a coleta na água, o microplástico é analisado e classificado em laboratório. Foto: Gabriel Marchi.

“Nós encontramos microplástico em todos os setores amostrados, desde áreas mais urbanizadas até áreas menos ocupadas ou protegidas.  Esses resultados são bastante preocupantes, e indicam que a presença desses itens não obedece às fronteiras geográficas conhecidas por nós, mas está relacionada a diversos fatores, como presença de fontes de origem, regime de marés, correntes e degradação do plástico nos ambientes marinhos”, alerta a oceanógrafa Fernanda Eria Possatto. 

O método de coleta de microplástico na água utilizado se mostrou eficiente e trouxe resultados muito relevantes. “A maior parte dos itens de microplástico encontrados na nossa pesquisa são de origem secundária, ou seja, resultado da degradação de partículas maiores, por exemplo garrafas, sacolas, outras embalagens. Dessa forma, esses resultados indicam a necessidade da implementação do monitoramento também do macroplástico, pensando na premissa de que é necessário agir sobre a fonte, como forma de prevenir a entrada de lixo no mar”.

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Pesquisa em microplástico investiga a origem dos resíduos nas entradas dos estuários. Foto: Gabriel Marchi.

Durante a quinta Rebimar, a pesquisa também será feita na desembocadura de alguns rios que deságuam nesses estuários, pensando na premissa de que é necessário agir sobre a fonte, como forma de prevenir a entrada de lixo no mar. “Nossa ideia é ter uma visão panorâmica (como se fosse uma grande foto) da distribuição e da quantidade de microplástico e macroplástico no litoral do Paraná. Entender como está ocorrendo a contaminação poderá auxiliar em ações mitigatórias futuras, visando a conservação de espécies e a própria saúde humana”, finaliza Possatto.

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Embarcação do Rebimar coletando microplástico com uma rede de pesquisa. Foto: Gabriel Marchi.

Tags: APA de Guaratuba, Associação MarBrasil, Rebimar, litoral paranaense, Grande Reserva Mata Atlântica, fauna marinha, meio ambiente, Petrobras Socioambiental, Governo Federal , Sítio Ramsar

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Garça-azul. Foto: Gabriel Marchi.

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Jacaré-de-papo-amarelo. Foto: Gabriel Marchi.

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Martin-pescador-grande. Foto: Gabriel Marchi.

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