Expedição Parque Nacional Marinho de Currais

Uma homenagem ao pioneiro da ornitologia no Paraná, Pedro Scherer Neto

Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais. Foto: Gabriel Marchi/Olhar Nativo

No dia 27 de abril, uma expedição histórica reunirá ornitólogos, pesquisadores e observadores de aves no Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais, unidade de conservação sob responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). 

A ideia da expedição surgiu da vontade do ornitólogo Pedro Scherer Neto em voltar ao arquipélago depois da descoberta recente de um atobá anilhado por ele há 40 anos. É a ave mais velha que se tem registro dessa espécie.  O registro foi feito pelo biólogo Gaspar José Gomes Neto. O atobá estava boiando no mar em Armação de Búzios, Rio de Janeiro. Ele recolheu a ave no barco, onde ela permaneceu descansando um pouco. 

Eu estava pescando de caiaque, numa rota que faço sempre, quando estava voltando vi o bicho boiando como um pato na água. Ele olhou para mim, eu olhei para ele e fiquei com medo dele enroscar na minha linha. Dito e feito, prendeu na linha. Quando cheguei ao lado dele, ele mesmo subiu na proa e virou as costas para mim, bem abusado”, brinca Gaspar. “Era um atobá esquisito. Normalmente eles fogem, não chegam muito perto, e esse não ligava para nada. Não queria sair do caiaque. Tentei tirar a linha e ele me bicou todo. Aí tive que conter pela cabeça e vi a anilha. Filmei o registro e devolvi o atobá ao mar”, conta Gaspar. 

Para Pedro Scherer Neto, é uma grande descoberta. “É o maior tempo de vida conhecido da espécie. Isso me suscitou uma grande vontade de voltar à ilha, relembrar o trabalho de pesquisa que fiz no passado e que continua sendo desenvolvido atualmente por uma nova geração de pesquisadores, um pessoal que, junto com o ICMBio está envolvido na conservação de Currais”, disse Scherer.

Gaspar é herpetólogo e já atuou em vários projetos com biologia marinha e ao ver a ave não fazia ideia da descoberta. “Ele tinha cara de velho, mas estava bem. Tanto que que subiu no caiaque sozinho e voltou a boiar normalmente. Era um bicho diferenciado e quando recebi o certificado fiquei muito surpreso em saber que tinha vindo do Paraná”.  Quanto à idade, a surpresa foi ainda maior: “Quando pesquisei e vi que a idade máxima de um atobá era 25 anos, pensei: que loucura, o atobá mais velho do mundo! Búzios tem muito ninhal de aves marinhas, talvez ele tenha vindo se aposentar por aqui e curtir o lugar.”


O biólogo Gaspar José Gomes Neto e seu encontro com o atobá mais velho já registrado.

O anilhamento em Currais começou a ser feito em 1983, em atobás e fragatas. Pelos relatos de pesquisadores e fotógrafos, a população de atobás e fragatas é grande na ilha. A expedição vai poder também estimar uma possível alteração na quantidade. “A Ilha continua sendo um local importantíssimo para reprodução dessas espécies. É uma coisa que me fascina, saber que a ilha não tem tido perturbação do ninhal como existia no passado, na década de 1970, com expedições, visitas e pesca sem controle”, comemora Pedro Scherer, que tem a permissão de anilhamento número 54 no Brasil. Aos 76 anos, acumula 20 visitas ao arquipélago. Ele foi o pioneiro da ornitologia no estado e é responsável pela formação e inspiração de dezenas de ornitólogos. 

Pedro Scherer Neto (esquerda), Raphael Sobania (centro) e funcionários do Museu de História Natural de Curitiba. Foto: acervo pessoal.

 

O ornitólogo Raphael Sobania, aos 14 anos, quando começou a estagiar com Pedro Scherer Neto. Foto: Acervo Pessoal.

 

O Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais foi criado em 2013 pela lei federal nº 12.829. Ainda não tem plano de manejo e será a próxima unidade a desenvolver. Atualmente o Conselho Consultivo do parque está em atividade, com membros do Poder Público e sociedade civil, incluindo representantes de prefeituras locais, colônias de pescadores, clubes náuticos, organizações não governamentais e a comunidade científica. Entre as iniciativas destacam-se a criação de Câmaras Temáticas (CT) especializadas, como a de Uso Público, Pesca e Pesquisa. 

O ICMBio também mantém ativamente a fiscalização na unidade de conservação. O órgão está aberto a uma gestão participativa da sociedade e o evento será uma grande oportunidade de discutir o futuro do parque e gerar informações. 

Estamos nessa discussão sobre a gestão do parque, o que fazer, o que não fazer, e como fazer. Um exemplo é o sobrevoo de drones, qual o impacto disso para as aves? Os ornitólogos poderão nos trazer subsídios importantes para tomadas de decisão. Para nós será muito rica essa troca com especialistas, como podemos gerir melhor a partir do conhecimento científico”, comenta Rodrigo Torres, analista ambiental do ICMBio e membro do conselho. 

Como “subproduto” dessa expedição, será produzido um guia de aves, com a participação dos fotógrafos e ornitólogos presentes na expedição. “Os fotógrafos vão fornecer imagens para aumentarmos nosso acervo para materiais, cartazes e cartilhas”, complementa Torres. 

 

Filhote de fragata registrado em Currais pela ornitóloga Juliana Recheleto, em 2006.

 

Localizado no município de Pontal do Paraná, em frente à Praia de Leste, o Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais é o primeiro parque marinho do Paraná e o terceiro do Brasil. Formado por três ilhas, Grapirá, Dois Picos e Filhote, fica a apenas 11 quilômetros da costa e abrange uma área de 1.359,69 hectares. 

As ilhas não têm praias, são formadas por rochas e pedras, e são áreas de reprodução de inúmeras espécies de aves marinhas que usam a unidade de conservação para botar seus ovos e criar seus filhotes em segurança. Pelo menos 4 mil aves vivem no local, segundo Scherer. O arquipélago é protegido por lei, qualquer atividade, inclusive de pesquisa e mergulho, só pode ser feita com autorização do ICMBio. 

Mãe com filhote de atobá em Currais, fotografados pela ornitóloga Juliana Recheleto, em 2006.

 

Como o microplástico afeta a unidade de conservação?

A Associação MarBrasil possui autorização para pesquisas na área. Um dos barcos da expedição vai levar integrantes do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), iniciativa que conta com patrocínio do Governo Federal por meio do programa Petrobras Socioambiental. Uma equipe de pesquisa em microplástico vai coletar amostras da água para levantar os níveis de contaminação no entorno do parque. Os pesquisadores têm levantado também a ingestão de microplástico por aves e peixes do litoral do Paraná. Participam desse grupo os oceanógrafos Fernanda Possatto e Allan Paul Krelling e a ornitóloga Juliana Recheleto. 

Para os pesquisadores, entender como um Parque Nacional Marinho, tão próximo à costa, pode estar exposto aos impactos externos é fundamental. “Quando se trata do lixo no mar, existe um gradiente que vem da terra, de onde 80% do lixo no mar se origina, e chega até os grandes giros oceânicos, onde estão as ‘ilhas’ de lixo. O Parna Currais está em local estratégico, quando se pensa nesse gradiente do litoral paranaense. Então ter a oportunidade de investigar essa poluição nesse ambiente nos ajudará a entender o status do nosso litoral em relação aos microplásticos“, afirma Allan Paul Krelling, professor do Instituto Federal do Paraná (IFPR) e um dos coordenadores da pesquisa em microplásticos do Rebimar.

Pesquisadores fazem a triagem do plástico coletado na unidade de conservação.

 

Coleta de microplástico na água. Foto: Gabriel Marchi/Olhar Nativo.

 

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