
Um novo protocolo científico está ajudando a revelar o que o sangue do caranguejo-uçá guarda sobre a saúde dos manguezais. O estudo-piloto aplica uma técnica inovadora, já utilizada em outros animais, para investigar o caranguejo-uçá (Ucides cordatus), considerado uma espécie sentinela da qualidade ambiental. O método, conhecido como ensaio do micronúcleo, permite identificar danos genéticos nas células e compreender como a poluição interfere na vida desse habitante essencial dos manguezais.
A pesquisa é conduzida pelo Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), iniciativa da Associação MarBrasil com patrocínio do Governo Federal, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Pesquisadores estrangeiros da Universidade de Antioquia na Colômbia participam do estudo em um intercâmbio científico, compartilhando experiências com a aplicação da técnica em outras espécies no peixe chamado de Bocachico (Prochilodus magdalenae), importante recurso da região de Medelin.
Há oito anos, a Associação MarBrasil se dedica ao monitoramento dos manguezais da Grande Reserva Mata Atlântica, em locais como Iguape, Cananeia, Guaraqueçaba, Paranaguá, Antonina, Guaratuba e Joinville. O foco das análises está na presença e acúmulo de metais pesados, como mercúrio, chumbo e cádmio, nos ecossistemas costeiros.
“Esses elementos ocorrem no ambiente em pequenas concentrações. Mas, quando se acumulam em excesso, podem causar sérios danos à fauna, à flora e, em última instância, às comunidades humanas que dependem da pesca e do mangue”, explica a coordenadora da pesquisa Cassiana Baptista Metri.
A pesquisadora explica que, diluídos e invisíveis, esses contaminantes muitas vezes são indetectáveis na água. “Mas os organismos que vivem ali vão absorvendo pequenas doses, dia após dia. O resultado é um processo silencioso: ou o corpo elimina o poluente, ou o acumula até os primeiros sinais de desequilíbrio apareçam”.
O termômetro do mangue
É nesse ponto que entra o caranguejo-uçá, um dos habitantes mais emblemáticos e resistentes dos manguezais. Para os cientistas, ele funciona como um verdadeiro termômetro do manguezal. A coleta acontece com o apoio de catadores locais. No meio do mangue, o animal é limpo e tem uma pequena amostra de sangue retirada com uma seringa. O material é preparado em lâminas, analisado e fotografado. Todo o processo é registrado. Depois, o caranguejo é devolvido ao seu habitat com vida.
“Cada gota de sangue pode revelar muito: deformações celulares, indícios de estresse ambiental e sinais de exposição a contaminantes. Informações que ajudam a mapear riscos, entender o impacto da poluição e traçar estratégias de conservação”, destaca Metri.

Pesquisadora Cassiana Metri coletando amostra de sangue em caranguejo no manguezal.
O herói da resistência
Mesmo exposto a metais pesados, o caranguejo-uçá mostra uma surpreendente capacidade de resistência. Mesmo exposto a metais pesados, ele mantém sua vitalidade. “A hipótese é que o organismo do caranguejo consegue mobilizar esses poluentes de forma a evitar danos”, explica a coordenadora da pesquisa. “Uma adaptação que desperta tanto admiração quanto alerta”.
Nas primeiras análises do sangue em laboratório não foram encontradas anomalias ou contaminação aguda invisível. A pergunta que inquieta a equipe é: até quando essa resistência vai durar? O caranguejo está no meio da cadeia alimentar. Alimenta-se de folhas de mangue e pequenos organismos e serve de alimento para aves e pequenos mamíferos. Se ele acumula contaminantes, todo o ecossistema está exposto. E o alerta chega também ao prato de quem consome frutos do mar.
“Com estudos como esse, é possível antecipar ameaças invisíveis e estabelecer parâmetros de monitoramento que podem ser acionados em casos de acidentes, vazamentos ou até mesmo incidência de pragas”, acrescenta.
Outra pesquisa conduzida pela equipe tem como objetivo principal avaliar se o acúmulo de metais pesados no animal pode representar uma ameaça à saúde pública. Para dimensionar o risco, os cientistas estão mapeando o perfil de consumo da população. A investigação busca detalhes como a frequência com que o caranguejo é consumido, quais partes do animal são ingeridas e as quantidades tipicamente consumidas.

Amostras do sangue do caranguejo são avaliadas no microscópio.
Manguezais: guardiões e ameaçados
Os manguezais são um dos ecossistemas mais ricos e importantes do planeta. Funcionam como berçários marinhos, abrigando espécies que mantêm o equilíbrio da vida costeira. Também funcionam como uma imensa “esponja” de absorver carbono da atmosfera, fundamentais para frear as mudanças climáticas.
Mas estão sob pressão. O aumento da temperatura e as alterações na salinidade da água estão mudando a dinâmica desses ambientes, colocando em risco espécies que dependem da água salobra, como o próprio caranguejo-uçá.
Por isso, a ciência se une às comunidades que vivem do manguezal. O novo estudo alia conhecimento científico, conservação e saber tradicional para entender e proteger esse ecossistema e garantir a sustentabilidade da pesca artesanal. Afinal, o sangue do caranguejo não revela apenas dados científicos, guarda a história de um ecossistema que resiste em silêncio.



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