Estruturas foram colocadas no litoral paranaense para combater a pesca de arrasto e permitir a recuperação da biodiversidade marinha

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25 anos após a instalação dos primeiros recifes artificiais marinhos no litoral do Paraná, uma expedição de mergulho científico revisita a área para comparar a paisagem submersa atual com o cenário antigo de degradação deixado pela pesca de arrasto industrial. O reencontro com essas estruturas revela os impactos ambientais positivos que se multiplicaram ao longo de duas décadas e meia, e que começaram com uma ideia simples, mas pioneira: devolver vida ao fundo do mar.
“A tecnologia dos recifes artificiais não é nova. Índios Tupinambás já utilizavam madeira e pedra para criar habitats e atrair peixes, trazendo os recursos pesqueiros para mais perto e facilitando a captura do alimento. A ciência apenas aprofundou esse conhecimento e investigou benefícios e riscos”, explica o biólogo Ariel Scheffer, um dos pesquisadores responsáveis pelo projeto e atualmente presidente do Conselho da Associação MarBrasil.
Em países que utilizam essa tecnologia para fins de conservação, a escolha do local é decisiva. No Paraná, a região selecionada contava apenas com pequenas ilhas e pouco substrato rochoso. “O fundo é arenoso, e a proposta era reduzir o impacto da pesca de arrasto na costa paranaense. Havia um grande conflito entre pesca artesanal e pesca industrial. Arrasteiros de outros estados passavam muito perto da costa. Surgiu então a ideia dos recifes artificiais”, relembra Frederico Brandini, idealizador dos recifes artificiais, fundador da Associação MarBrasil e atualmente Professor Titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.
Brandini explica que os peixes se sentem atraídos pelo refúgio e, quando se cria um ambiente com luz e nutriente, cria-se uma nova teia alimentar e um novo fluxo de energia. “Passa a ser um ecossistema semelhante ao ambiente natural, mas que pode ser visitado, trabalhado e monitorado. E quanto mais você visita os ambientes artificiais, mais os ambientes naturais são deixados quietos, reduzindo o impacto do homem nessas áreas”, complementa.
Para Brandini, voltar ao local depois de tanto tempo para uma experiência de mergulho é como fazer uma viagem no tempo. É a oportunidade de relembrar, com prazer e orgulho, as experiências memoráveis vividas ao lado de grandes amigos durante o desenvolvimento do projeto Recifes Artificiais, além de constatar os bons frutos colhidos ao longo dos anos e sentir orgulho dos resultados alcançados.
“Que experiência maravilhosa! Eu havia mergulhado aqui há 20 anos, e ver o resultado agora, lá embaixo, é emocionante. Gostei muito do que vi: não só os blocos estão íntegros, como também abrigam comunidades bentônicas belíssimas e muito coloridas. Estou extremamente orgulhoso de ter participado de tudo isso.”
Ariel Scheffer também ficou impressionado e emocionado em ver como o ambiente está rico e viçoso. “Os bentos consolidados, que são minha área de pesquisa estão maravilhosos, são diversas espécies incrustadas nos recifes. O que era apenas concreto cinza floresceu está todo colonizado e cheio de vida”, conta ele.
Além da beleza, depois de todo trabalho realizado, os avanços em conservação são visíveis, além do incremento do turismo e da pesca. “Ajudamos os pescadores com a questão do ordenamento da pesca de arrasto e da proteção de certas populações de peixes. Com os recifes no raso, atualmente, pescadores pescam principalmente peixe-porco. E espécies ameaçadas como o mero estão cada vez mais protegidas”, acrescenta Scheffer.






Confira o vídeo 360 graus do Parque dos Meros atualmente aqui
Relembrando a história de uma revolução subaquática

Em 1997, o então doutorando do curso de pós-graduação em zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ariel Scheffer e seu orientador, professor Dr. Frederico Brandini, iniciaram estudos para a implantação dos recifes, com o apoio de outros pesquisadores do Centro de Estudos da Mar-UFPR, período em que o Brandini era professor e pesquisador da instituição. As pesquisas envolveram a dinâmica costeira, a influência de correntes frias e quentes e a disponibilidade de luz — parâmetros decisivos para a viabilidade dos recifes.


“A Marinha do Brasil foi uma grande parceira, assim como a Votorantin. Nesta época eu estudei tanto os materiais que virei um ‘biólogo do concreto’, e conseguimos desenvolver os blocos com poucos poros, para que não fossem dissolvidos pela água salgada. Fomos testando e aprendendo, até chegar ao modelo utilizado”, conta Scheffer. Após sucessivos testes, chegava-se ao modelo ideal: blocos com poucos poros e alta resistência à água salgada.
Em 2001, depois dos estudos, das validações científicas e das licenças ambientais, cerca de duas mil estruturas de concreto e duas balsas graneleiras foram afundadas. Nascia ali o Projeto RAM, base do atual do local que hoje é conhecido como “Parque dos Meros”, entre o Arquipélago dos Currais e as Ilhas Itacolomis, uma referência em conservação marinha.
Em 2004, Scheffer e Brandini fundaram a Associação MarBrasil, garantindo continuidade ao trabalho. O sucesso do projeto inspirou a criação do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (REBIMAR), que, entre 2010 e 2012, instalou mais 3.500 blocos de concreto, já com patrocínio do Governo Federal por meio do programa Petrobras Socioambiental.
A instalação foi realizada em conjunto com a comunidade local, em especial os pescadores artesanais, que puderam contribuir com a escolha dos locais de instalação dos recifes artificiais, por meio de uma consulta pública. Além disso, eles receberam treinamento de GPS fortalecendo a navegação segura e o ordenamento costeiro.
O resultado foi a proteção de 15 mil hectares da plataforma continental interna, ampliando habitats e incrementando a biodiversidade, da fauna bentônica aos grandes peixes e invertebrados.
O projeto pioneiro contribuiu também para o desenvolvimento de uma legislação brasileira inédita para ordenamento dos recifes artificiais, sendo o primeiro projeto do Brasil de recifes artificiais com licença do IBAMA e do Ministério do Meio Ambiente. Quatro anos de estudos e dois anos de monitoramento ambiental pós-instalação garantiram o rigor do processo.



O projeto teve aceitação dos pescadores locais. Além disso, o conglomerado ficou reunido num ponto de criadouro de camarão, protegendo o assoalho marinho da pesca de arrasto, evitando o impacto no fundo arenoso, inclusive protegendo larvas de peixes e outras espécies que não têm interesse comercial, mas acabavam sendo levadas pelas grandes redes e depois descartadas como lixo.
“Foi um divisor de águas. A região tornou-se destinada à pesca artesanal, afastando o arrasto da costa e criando um ambiente seguro para reprodução e crescimento de inúmeras espécies”, relata o pesquisador André Cattani, diretor-executivo da Associação MarBrasil.
O mergulho esportivo também ganhou novo fôlego: cardumes densos, paisagens submersas vibrantes e encontros com espécies raras, como o imponente mero, que pode chegar a três metros e pesar até 400 quilos.
“Não é simplesmente lançar pedras ao mar”
Os recifes são estruturas de concreto moldadas para imitar habitats naturais. No RAM, inúmeros testes ajudaram a definir um material com pH corrigido para aproximar-se da água do mar (entre 7 e 8), permitindo a rápida colonização biológica.
“Os primeiros colonizadores são chamados de os organismos pioneiros. Começa com o microfilme bacteriano que adere em questão de dias. Depois, aos poucos outros seres vão agregando, como esponjas, ostras e corais”, explica Cattani.
A superfície dos blocos facilita a incrustação. Por dentro ele é vazado, em forma de trevo, possibilitando o uso das fendas e aumentando a complexidade e os resultados do recife. “Foram feitos estudos que identificaram a presença de larvas no litoral do Paraná de várias espécies colonizadoras. Não é simplesmente lançar pedras ao mar, é preciso uma análise muito aprofundada para que o recife cumpra sua missão e gere vida”, completa o oceanógrafo.
Essa ação trouxe um incremento ambiental e social em uma área altamente degrada pela pesca de arrasto. Foi criado um corredor ecológico marinho com extensão de 12 quilômetros e com uma área de mais de 15 mil hectares de proteção contra atividades impactantes, trazendo a recuperação de espécies degradadas pela exploração da pesca predatória e servindo também para a reprodução de peixes, invertebrados e crustáceos.

Assista à reportagem sobre a expedição aqui.


