Pesquisadores paranaenses contribuem para a Estratégia Nacional Oceano Sem Plástico

Pesquisadores fazendo coleta de microplástico no litoral do Paraná. Foto: Gabriel Marchi.
Os pesquisadores do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (REBIMAR) contribuem para a Estratégia Nacional Oceano Sem Plástico (ENOP), uma iniciativa do Departamento de Oceano e Gestão Costeira do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O primeiro evento presencial foi em Brasília, nos dias 18 e 19 de junho de 2024.
O REBIMAR é um conjunto de ações socioambientais voltadas para a conservação da região litorânea, principalmente no Paraná e na costa sul de São Paulo. A iniciativa é coordenada pela Associação MarBrasil, com patrocínio da Petrobras e do Governo Federal, e conta com apoio científico do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná (CEM/UFPR) e do Instituto Federal do Paraná (IFPR).
Representando o Paraná, participaram os coordenadores da pesquisa sobre lixo no mar do REBIMAR, Fernanda Eria Possatto (Associação MarBrasil) e Allan Paul Krelling (Laboratório de Conservação e Manejo – LACONS/IFPR).
“É uma oportunidade fantástica para novos direcionamentos para políticas públicas que ajudem a mitigar esse problema. O Oceano Sem Plástico foca em várias frentes como a redução do consumo, desenvolvimento de novas estratégias para produtos biodegradáveis, reciclagem, gestão adequada de resíduos sólidos e atividades de educação ambiental e limpeza de praia”, afirma Fernanda Possatto.
A pesquisadora destaca que o consumo atual é a verdadeira fonte do problema. “Não existe uma solução única para o plástico. Uma boa gestão pública para a reciclagem do resíduo é um dos pontos principais, mas isso deve estar aliado a repensar e reduzir o consumo de itens de uso único, por exemplo. O plástico no mar exige uma abordagem abrangente, envolvendo diversos atores, desde a produção até o consumo”, diz Possatto.
O encontro promoveu consultas, troca de informações e conhecimentos para a construção participativa da ENOP. Foram convidados atores e setores relevantes para a elaboração e implementação de políticas públicas voltadas ao combate da poluição plástica. Entre os participantes estavam representantes da sociedade civil organizada, universidades e institutos de pesquisa que estudam os impactos do plástico no meio ambiente e na saúde humana. O convite aos pesquisadores paranaenses veio por meio do Projeto TerraMar (MMA/GIZ/KI) e da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano.
Resultados recentes das pesquisas do REBIMAR confirmam dados alarmantes sobre a contaminação por microplásticos. “A poluição plástica está em toda parte, não apenas em regiões urbanizadas ou portuárias. Não há diferença entre áreas degradadas e protegidas. Isso comprova que o lixo não respeita fronteiras geopolíticas”, ressalta Allan Paul Krelling.
Itens de plástico foram encontrados em todos os setores do Complexo Estuarino de Paranaguá (Baías de Paranaguá, Antonina, Laranjeiras e Guaraqueçaba) e em todas as praias analisadas (Pontal do Sul, Ilha do Mel e Ilha das Peças). Microplásticos estavam presentes desde as áreas mais populosas, próximas à cidade de Paranaguá, até regiões pouco habitadas, incluindo unidades de conservação.

Equipe de pesquisadores fazendo a coleta de microplástico na espuma da água. Foto: Gabriel Marchi.
O levantamento é realizado em três frentes: na água, em sedimentos e em aves marinhas. Nas plumas ou espumas na água, é possível detectar a olho nu a presença desses plásticos, que podem ser ingeridos por pequenos animais, peixes, aves, tartarugas e mamíferos marinhos.
A pesquisa com aves costeiras busca padrões nas mortes, a partir de dados científicos e laudos de necropsias. São usados os dados públicos do Sistema de Informações do Monitoramento da Biota Aquática (Simba) coletados pelos Projeto de Monitoramento de Praias (PMP), atividade desenvolvida para o atendimento de condicionante do licenciamento ambiental federal junto ao IBAMA, das atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás natural na Bacia de Santos.
O acompanhamento do encalhe de animais marinhos nas praias é feito diariamente pelo PMP, desde o litoral central fluminense até o litoral norte de Santa Catarina. No Paraná, o programa é executado pelo Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (LEC/UFPR).

Círculo vermelho indica resíduo sólido encontrado dentro do trato gastrointestinal de uma fragata. Foto: Simba.
A análise dos dados feita pelo REBIMAR mostra que, entre as aves, as fragatas apresentaram os piores índices: 20% de ocorrência de resíduos sólidos no trato gastrointestinal; os atobás, 13,3%; e as gaivotas, 6,7%. “Mesmo encontrando poucos indivíduos já seria preocupante, visto que a presente do plástico no estômago já é um indicativo de poluição. Mas já confirmamos uma quantidade relevante de animais ingerindo plástico”, avalia Possatto.
A pesquisa sobre lixo no mar é inédita e poderá contribuir com dados relevantes para embasar políticas públicas e ações de educação ambiental. “A ideia é falar sobre a coexistência e ter um mapeamento para entender, no futuro, o impacto dos resíduos humanos sobre a fauna”, defende Allan Paul Krelling.

Cientistas usam várias técnicas e exames laboratoriais para quantificar plástico na água. Foto: Gabriel Marchi.

A pesquisadora Fernanda Eria Possatto, coordenadora da pesquisa focada no lixo marinho do REBIMAR. Foto: Gabriel Marchi.

Pesquisador e oceanógrafo Allan Paul Krelling, professor do Instituto Federal do Paraná (IFPR). Foto: Gabriel Marchi.