Fauna Incrustrante

Seres aquáticos que viajam o mundo levados por correntes e cascos de navios

Apenas 15% das espécies da fauna incrustante do litoral são confirmadamente nativas

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Foto: Robin Loose.

Quando estamos na praia e observamos os costões rochosos, percebemos que não são apenas pedras. Milhares de organismos estão fixados nesses substratos, embrenhados nos espaços, percorrendo as frestas desse habitat. Alguns são duros e imóveis, outros parecem pequenas plantas que dançam com o movimento da água e do vento. Há ainda ouriços adormecidos e pequenos seres caminhando rapidamente nas brechas que parecem ruas de uma cidade. A rocha está viva!

Esses organismos são chamados pelos pesquisadores de fauna incrustante ou bentos de fundos consolidados. O biólogo Rafael Metri, vice-presidente da Associação MarBrasil e pós-doutor em Dinâmica dos Oceanos e da Terra, estuda essas comunidades marinhas há vários anos. Ele coordena a pesquisa nesta área dentro do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), iniciativa patrocinada pela Petrobras e pelo Governo Federal. 

A equipe de pesquisadores trabalha para desvendar a origem desses seres, identificando quais espécies são nativas e quais foram introduzidas. “Temos visto que uma taxa de 20% a 25% de todas as espécies identificadas veio de fora, foram introduzidas. As espécies confirmadamente nativas dos nossos costões giram em torno de 15%”, explica Metri.

Como existe uma enormidade de organismos, a identificação de todos é muito complexa e exigiria uma gama extensa de especialistas trabalhando em conjunto. “A maioria das espécies acaba classificada em uma categoria batizada de criptogênica, na qual não é possível confirmar se é nativa ou veio de fora pelos navios. Muitas vezes são espécies que já estão espalhadas no mundo todo e fica muito difícil descobrir a origem exata por falta de estudos anteriores”, acrescenta Metri.

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O pesquisador Rafael Metri coordena as pesquisas com a fauna incrustante dentro do Rebimar. Foto: Gabriel Marchi.

Monitoramento e Pesquisa

Rafael Metri também analisa os dados com placas instaladas pelo Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP) dentro do monitoramento ambiental do porto para controle de espécies exóticas e invasoras. A pesquisa é feita em forma de consultoria desde 2018. “De três em três meses, as placas plásticas são recolhidas do fundo do mar. Nesse intervalo, por vezes não enxergamos mais o fundo, de tantos organismos aderidos. A colonização é muito rápida”.

Num primeiro momento, a ocupação é apenas na superfície, mas com o passar do tempo, eles começam a crescer para cima e cabem outros organismos, como camarõezinhos, vermes, anfípodes que ficam passeando e ocupando esses espaços, e tudo isso vira comida de peixe depois”, complementa o pesquisador.

Uma equipe de pesquisadores-mergulhadores acompanha a evolução da fauna incrustante na região do Parque Nacional Marinho dos Currais e nos recifes artificiais marinhos, que incluem estruturas de concreto e duas balsas naufragadas no litoral paranaense. Também é feito um censo dos peixes que frequentam esses ambientes, com a identificação, até o momento, de cerca de 90 espécies diferentes. 

Ao comparar os ambientes, o pesquisador confirma que recifes artificiais estão cumprindo o papel de simular um habitat natural e agregar biodiversidade. “Num primeiro momento, os recifes artificiais atraem espécies diferentes, as primeiras que chegam e vão dominando o espaço. Mas, ao longo do tempo, vai ocorrendo a substituição de espécies e eles ficam bem parecidos com os ambientes naturais. Não é exatamente igual, porque a composição química e heterogeneidade do substrato é diferente, mas é similar. Isso acaba atraindo e mantendo as comunidades de peixes”.

Exemplos das amostras fotográficas do Rebimar, para monitoramento da fauna incrustante nos recifes rochosos e recifes artificiais do projeto. Foto: Rafael Metri.

Introduções históricas e recentes

Há outras invasões muito recentes e preocupantes, como o mexilhão-verde (Perna viridis) que tem se multiplicado com uma velocidade impressionante e já está predominando em vários locais. “A primeira vez que vimos no estado foi em 2022. Agora, em qualquer rocha ou costão que observamos ele está lá, aos montes. É uma espécie que já dá para ser considerada invasora porque já está bem estabelecida na área e se reproduzindo rapidamente”, alerta Rafael Metri.

Segundo o pesquisador, a espécie causa mudanças ecológicas, não necessariamente prejuízos diretos para o ser humano. Mas já está ocupando o espaço de outras espécies e pode haver um problema nos cultivos comerciais de mexilhão-marrom com a disputa de espaço.

LEGENDA FOTO: Mexilhão-verde com pequenas cracas exóticas coladas a ele. Foto: Rafael Metri.

Há também uma ostra exótica que chegou em 2017 a Saccostrea cucullata, conhecida popularmente como ostra-de-capuz, natural do Oceano Pacífico. A espécie tem a borda da concha toda ondulada, como uma tampa de garrafa. “Ela gostou muito daqui e se multiplica com velocidade, tem alguns costões que só dá ela. A carne é amarelada e o sabor é mais amargo. Caso seja colhida por engano pode causar algum constrangimento em restaurantes por parecer que está estragada”, antecipa o pesquisador. 

Espécies exóticas estão acostumadas a colonizar materiais como madeira, concreto, pilar de ponte, trapiches e cascos de barcos, exigindo manutenção periódica. Há ainda algumas cracas que grudam nos cascos das tartarugas e passeiam pelo mundo todo, não sendo possível identificar de onde surgiram.

Saccostrea cucullata ao centro, como bordas parecendo uma tampa de garrafa. Foto: Rafael Metri.

Carbono Azul e a importância da fauna incrustante

As espécies incrustantes estão o tempo todo disputando um espaço. Em geral, esses organismos não podem sair atrás de alimento e ficam filtrando a água que passa por eles. Alimentam-se de bactérias, do fitoplâncton e do zooplâncton que tem ao redor, e servem de alimento para caramujos, estrelas-do-mar e peixes.

No fim das contas, nós humanos também usufruímos dos serviços ecossistêmicos produzidos nessas rochas. “Porque o fitoplâncton captura carbono, a fauna incrustante se alimenta dele e ela serve de alimento para outros organismos, fazendo a ciclagem dos nutrientes. Depois, ainda serve de alimento para os peixes que abastecem nosso prato. Corais, cracas e esponjas também retiram carbono atmosférico absorvido pela água para construir o próprio corpo, no processo que chamamos de Carbono Azul”, detalha Metri.

Recife Rochoso colonizado por diferentes organismos. Foto: Robin Loose.

Espécies incrustantes curiosas

A ascídia Maria-mijona (Microcosmus exasperatus) tem esse nome porque consegue reter um pouco de água durante a maré baixa até a maré encher novamente, e se alguém pressionar um pouco, esguicha essa água. Ela foi batizada de Microcosmus porque um monte de outros organismos grudam nela, formando um sistema em torno, aumentando a biodiversidade local. Ela ocorre em áreas portuárias ao redor do mundo e é considerada exótica no Brasil.

LEGENDA FOTO:

Ascídia Microcosmus exasperatus, maria-mijona, exótica. Foto: Rafael Metri.

Rafael Metri participou junto com outros dois pesquisadores da descrição de outra espécie exótica descoberta em 2011, na Ilha da Cotinga, em Paranaguá. Ela foi batizada de ascídia Sidneioides peregrinus, porque parece que está dando uma passeada pelo mundo. “Quando fomos buscar dados, encontramos parentes próximas lá no Japão e na Austrália. Provavelmente é nativa do Oceano Pacífico, mas pesquisadores de lá nunca a encontraram, foi descoberta aqui. Atualmente, já está bem espalhada, com registros em São Paulo e Santa Catarina”.

Ascídia Sidneioides peregrinus, descrita pela primeira vez em 2011, na Ilha da Cotinga em Paranaguá, já como espécie exótica. Foto: Rafael Metri.

Próximo passo: estudos nos manguezais 

Em 2024, a pesquisa com a fauna incrustante foi estendida para os manguezais, nas raízes e nos caules aéreos. Essa biota é pouco conhecida e grande parte da biodiversidade dos manguezais está grudada no tronco das árvores. Também serão acompanhadas as espécies que ficam grudadas na camada de algas, hora submersas e hora expostas, dependendo da maré.

“Todos sabem que quando a maré enche, os peixes invadem o manguezal para se alimentar. Mas o quanto eles comem é difícil de medir. Estamos começando um experimento no litoral do Paraná. Vamos monitorar áreas e comparar espaços onde os peixes comem livremente com espaços protegidos, onde eles não vão poder comer, para tentar medir esse fornecimento de alimento”, completa Metri.

A ideia é fazer a mensuração de um serviço ecossistêmico dos manguezais. Os dados trarão novas métricas sobre a importância desses ambientes para a manutenção do estoque pesqueiro.

Organismos incrustrados nos caules do manguezal passam a ser acompanhados pelo Rebimar. Foto: Gabriel Marchi.

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